Um em cada cinco portugueses sofre de uma doença mental (20% da população) e quase 65% das pessoas com uma perturbação psiquiátrica não receberam qualquer tratamento. Mas porque será que isto acontece? Apesar de a pandemia do COVID-19 ter mudado a forma como a população portuguesa olha para a saúde mental, ainda existe um longo trabalho a fazer para desmistificar as crenças e os mitos associados.

Na minha prática clínica, tenho-me cruzado com algumas pessoas que não contam a ninguém que têm consultas de psicologia, pois têm receio daquilo que os outros possam pensar (ex.: «Estou maluco ou sou um fraco.»).

Quando estamos doentes, não achamos que é sinal de fraqueza procurar um médico; quando queremos emagrecer, não nos consideramos fracos por procurar um nutricionista; então, porque é que procurar apoio psicológico é sinal de fraqueza?

Em parte, isto acontece porque temos uma crença distorcida e generalizada de que devemos ser capazes de enfrentar tudo sozinhos e que qualquer sinal de fraqueza deve ser ocultado. Essa crença é-nos incutida logo na infância, através dos super-heróis que são capazes de enfrentar tudo e todos sozinhos. Negar uma fraqueza pode ser o primeiro passo para intensificá-la e se num dado momento necessitarmos de ajuda psicológica, isso não nos torna fracos e sem valor. Antes pelo contrário: é revelador da nossa coragem e força suficientes para expor as nossas emoções e sentimentos.

Todos nós, nalgum momento das nossas vidas, já passámos por momentos de crise. Nessas alturas, utilizamos os nossos recursos internos e externos para saber lidar com o que sentimos. Nessas alturas, as pessoas que nos rodeiam, como a família e/ou os amigos têm um papel muito importante para o nosso bem-estar. No entanto, em determinada situações, esse apoio pode não ser suficiente e aí é necessário recorrer a um técnico que tenha conhecimentos efectivos para contribuir para uma verdadeira ajuda especializada, que nem a família ou os amigos poderão proporcionar. No entanto, por vezes, quem chega ao acompanhamento psicológico traz consigo a crença de que o psicólogo é um ser com poderes mágicos, que irá fazer desaparecer, como por magia, todos os seus problemas. Não, o psicólogo não tem poderes mágicos e não vai resolver os problemas dos seus pacientes por eles, mas sim ajudá-los na viagem ao encontro do eu mais profundo, dando-lhes uma maior consciência de quem são e de como se relacionam consigo, com os outros e com o mundo que os rodeia, ajudando-os a resolverem as situações que lhes causam dor e sofrimento.